Cantando no chuveiro

Tem gente que acorda cantando. E continua cantando ou assobiando enquanto toma banho. Pula da cama e, minutinhos depois, tá pronto para enfrentar o dia, com um bom humor absolutamente irradiante. Gostaria de ser assim também. Até tento. Mas se até agora, com 58 anos, sequer vislumbro no horizonte o menor indício de que vencerei ao menos uma única batalha nessa guerra cinquentenária, acho que vou desistir. Jogar a toalha. Entregar nas mãos de Deus. Que se cumpra o destino. Ponto.
Todo dia levanto com a mesma sensação de que precisaria ficar na cama mais um pouco. Levanto, mas não acordo. Não levanto mal humorado, mas jamais seria capaz de abrir a janela e dar bom dia ao sol. Esquece aquela história de “Oh, que dia lindo!”. Nem pensar. Tomo um copo de leite gelado com café instantâneo, enquanto a água do café vai pro fogo, passo meu café bem forte (sempre contando com a inestimável ajuda dos meus anjos da guarda, porque nunca me queimei seriamente) e vou ler meus jornais.
Em seguida, banho. Aí começa outra luta. Das grandes. Como nunca estou bem acordado, todo dia derrubo o maldito sabonete. Não importa o tamanho nem a marca. Bobeou, vai pro chão. Toca agachar pra pegar. Novo, velhinho, não tem jeito. Escorrega e sai voando. Baita mão-de-obra. Toca deixá-lo embaixo d’água para limpar os cabelinhos que grudam nele impiedosamente, toda vez que cai da mão.
Hoje, depois da terceira agachada pra pegar o sabonete comecei a imaginar uma reunião de diretoria de alguma grande empresa para o lançamento de um novo sabonete. Na sala da presidência. Começa a reunião. Engravatados, estão lá os responsáveis pelos principais setores da indústria.
Presidente: “Vamos lá, então. Podem começar com as exposições.”
Perfumista: “Encontramos uma essência magnífica, fizemos um mix de cascas de árvores da Amazônia. Nas pesquisas qualitativas a avaliação foi excelente.”
Marketing: “A embalagem também foi testada com vários grupos de pessoas e teve um nível altíssimo de aprovação. Verde clarinha, como podem ver. Super ecológica.”
Presidente: “Ótimo. Vamos checar o que interessa aos acionistas.”
Diretor de Vendas: “O mercado está muito competitivo, mas acho que poderemos emplacar esse sabonete novo. Com uma boa campanha publicitária acho que…”
Presidente: “Tá bom, tá bom. Vamos ao que interessa. Sua vez, vice-presidente de Estratégia.”
Vice: “Conseguimos alcançar 92% de escorregadez. Pegou no sabonete, ele pula da mão e vai pro chão rapidinho. Espetáculo!”
Presidente: “É muito pouco. Quero 96%. Quanto mais cair o sabonete, mais rápido ele acaba e mais depressa vão comprar outros.”
Vice-presidente de Estratégia: “Impossível, mas vamos tentar…”
Presidente: “Qual a porcentagem do visgo?”
Vice: “Recorde: 86%.”
Presidente: “Tá bom. Mas gruda mesmo mais que os outros? Chupa tudo quanto é cabelinho, areia, o que tiver no chão?”
Vice: “Parece um aspirador.”
Presidente: “Certo. Melhorem a escorregadez e tá resolvido. Lançamos o produto novo no mês que vem.”
Estão vendo? Não tem nada de ficção nessa história. Só pode ser isso o que acontece quando vão colocar um sabonete novo na praça. Com a velocidade que evolui a tecnologia logo teremos incontroláveis sabonetes voadores aspirando todas as impurezas que encontrarem pela frente. Podem escrever. Aí todos nós vamos virar chineses de circo (aqueles que ficam rodando pratos com varinhas de bambu) durante o banho. Quero ver se alguém vai ter coragem de cantar embaixo do chuveiro.

* Artigo publicado no “Comércio do Jahu” em 6 de fevereiro.

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